sexta-feira, 6 de março de 2009

Heróis anónimos. Um marceneiro, professor e pai... «Tem havido entendimento na família», diz Júlio André

Descobrimos no bairro do Setenta, em Benguela, um homem de 41 anos, cuja história de vida merece homenagem. Chama-se Júlio André. Quanto à profissão, isto, depende do local em que se encontrar. Se em Benguela é marceneiro, no Bocoio é professor.

Muito jovem ainda, Júlio André teve de abandonar os estudos.
«Eu estive a fazer a sexta classe em 1996 mas, para fazer os exames, fui obrigado a trazer o recenseamento militar. Isso impediu-me, porque não tive recenseamento, não tive adiamento. Então, depois de parar de estudar, já que não fui admitido a fazer as provas, isto obrigou-me a procurar um mano que fazia o trabalho de malas e estofava também cadeirões», lembrou.

As malas artesanais, vulgo "de chapa", eram a única fonte de sobrevivência.
«As malas, que fazíamos, levávamos ao [armazém] “Fonseca & Irmão”. Fazíamos o câmbio com fuba [farinha de milho] e vendíamos a fuba. Por cada mala, nós recebíamos dois sacos [100 kg]».

E chegou o tempo em que as malas já não tinham saída. Mais uma crise a vencer. «Quase em 1991, paramos. Então, o dono da carpintaria tinha um camião. Metemo-nos na via, fazíamos viagens, Benguela-Sumbe, Benguela-Huambo, Benguela-Lubango. Depois disso, quando consegui a minha esposa, a responsabilidade tornou-se maior. Logo, começamos a pesquisar outros meios. E vimos que havia a necessidade de fazermos esse trabalho de marcenaria», revelou.

E como se dá o salto de marceneiro para professor? «Graças a alguns amigos ­
disse – que me incentivaram bastante [para] que pudesse continuar os meus estudos. Porque eu parei em 1986. Em 1992, depois da pequena paz, eu fiz ainda algum esforço, me matriculei. Mas, em 1993, depois dos confrontos, todos os documentos na escola foram roubados, e logo, perdi vontade de estudar. Até que um amigo apareceu tantas vezes aqui em minha casa para que eu continuasse a estudar», Júlio recorda, transparecendo gratidão no semblante.
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Júlio André dá aulas na localidade de Ngóa, comuna do Passe, no município do Bocoio. Tem a oitava classe feita e tem recebido superação pedagógica. Mas carrega ainda uma dor, a de não estudar. «A essa altura, a minha preocupação número um é encontrar alguém, que me ajude a sair na área em que estou a trabalhar, para que eu venha numa área onde pelo menos haja ensino médio – reforçou o compatriota – para ver se consigo concluir o ensino médio e, quem sabe, futuramente, para ver se conseguimos ir mais longe», sustentou.

Júlio tem quase pronta a sua própria casa de construção definitiva. Mas, confessa, é difícil trabalhar a centenas de quilómetros longe da família. Ou não ficassem aproximadamente 200 Km entre a cidade de Benguela e a povoação de Ngóa. «Tem havido entendimento na família. Porque às vezes eu passo o fim-de-semana lá, quando não tiver passagem de regresso, mas, quando tiver, vou na segunda-feira e na sexta sou obrigado a vir para me avistar um bocadinho com a família», esclareceu.

Quem cresceu sem os pais, sabe o que transmitir aos filhos. É o caso do marceneiro e professor, Júlio André. «Tenho estado a transmitir o espírito de que eles deviam estudar para terem uma formação, de maneira que amanhã, ainda que o pai ou a mãe não estiverem presentes, eles podiam conseguir se virar», concluiu.
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Refira-se que a rubrica “Nossa Homenagem” é oferta do programa de mesa redonda radiofónica, “Viver para Vencer”, uma produção da ONG angolana Associação Juvenil para a Solidariedade (AJS), às terças-feiras, das 17-18h30, através da Rádio Morena Comercial (97.5FM), cobrindo as cidades de Lobito, Benguela e Baia Farta
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AJS – “A cidadania é resultado de um exercício permanente de Educação e Comunicação”.

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